domingo, 20 de março de 2011

Carta ao Senhor t (para saber quem eu sou)

Sou a misteriosa Marcele, tenho 29 anos e sou uma mulher um tanto menina. Menina porque tenho a sensação que deixei em branco pelo menos uns sete ou mais anos de vida para traz, assim sem vivê-los de forma natural. Anos que fizeram de mim quem sou hoje, essa mulher menina, menina mulher, como escreveu Gonzaguinha. Sim, concordo a respeito de todo mistério que me envolve, tantos já o disseram, com os mais diversos fins. Mas não por isso, por tantas vezes perguntar a mim, afinal quem é você? Olho-me no espelho e descubro diversas. Olho para minha alma, outras tantas. Talvez eu goste de ser misteriosa por puro medo de saber a verdade do espelho e da alma.
Disseram-me que sou sensual sem ser vulgar e que tenho um olhar cativante. Acredito nisso tudo, e que esse tudo acontece com a maior naturalidade. Mas sou tímida, a ponto de às vezes não conseguir olhar mais de três ou quatro segundos fixamente nos seus olhos. A não ser que você seja uma criança, ou a não ser que seus olhos me fitem. No caso de não ser criança, você inteiro deve me fitar para que eu o olhe, e será inesquecivelmente encantador para mim.
Sou uma garota de poucos sorrisos, mas que gosta de sorrir. Gosto de quem me faz sorrir e meus sorrisos serão sempre, sempre, sempre sinceros. Acho que fujo da minha própria alegria porque não sei onde a encontro. E tenho medo de encontrá-la em lugares obscuros, secretos, proibidos, onde por vezes já encontrei. Então fico pescando a alegria alheia. Não que as queria para mim, apenas para senti-las um pouco.
Sou contida, introspectiva e poética até em conversas informais. Amo conversar e se estiver só, sou capaz de encontrar pessoas para qualquer assunto e achá-las interessante, desde um jardineiro até um físico-quântico - e essas situações não são hipotéticas. Nunca me sinto deslocada, alguém sempre tem algo a ensinar e eu tenho sede de aprender.
Não me importo muito com lugares. Claro que gosto de belos lugares, dos mais falados e fotografados, em fim, mas prefiro o ar puro, o céu estrelado, os cheiros, os sabores, o toque, as cores, as lembranças doces.
Qualquer um me faz chorar de emoção. Sou extremamente sensível e poucos entendem tanta sensibilidade e talvez nem tenham mesmo que entender. Escondo-me muitas vezes para chorar, em outras, não é possível, então paro choro ali mesmo. Acho que chorar deveria ser natural como sorrir. Ninguém olha para você se você sorri, mas se espanta quando chora.
Sou detalhista em palavras. Percebo todas as palavras quando direcionadas a mim e as guardo no coração. Eu deveria andar com uma placa dizendo: cuidado com o que me diz. Muitas vezes transformo pessoas, sutilmente, em textos e acho que as eternizo. Muitas vezes a transformo em emoção e nem queira saber o que acontece. Muitas vezes acredito nas palavras impensadas e aleatórias que me dizem e como me firo com isso.
Ao mesmo tempo, o mundo distrai-me. Poucas coisas realmente prendem-me, amarram-me, surpreendem meus olhos e ficam na minha memória. Talvez por isso eu goste da Arte, porque para mim ela é o mundo transformado, nem belo, nem feio, mas feito pra ser visto de forma incômoda.
Gosto de ler e escrevo compulsivamente, escrevo mentalmente, escrevo com lápis, caneta, em cadernos e guardanapos. Se minha mente registrasse meus textos o mundo leria coisas tão belas. Mas escrevo mesmo é para mim, para colocar para fora coisas que ninguém jamais escutaria, entenderia, ou mesmo suportaria.
Sou musical, mas ultimamente não tenho cantado, abandonei o violão, vendi o violino. Estou desaprendendo a espantar meus males. Preciso voltar a cantar.
O amor para mim é incompreensivo, não aprendi muito sobre ele desde garotinha. Sou péssima em amar, desculpem-me todos. Mas quero aprender, e às vezes quero ridiculamente aprender sozinha. Pensando bem, não é tão ridículo, porque posso aprender a amar-me, o que é difícil, porque sou todas essas coisas e uma porção de outras espantosas, monstruosas, não tão belas, mas que não me envergonho de contar.

sábado, 19 de março de 2011

Olhos barrentos

Por que dizer abranda, alivia a carga da dor? E quando não se pode, por respeito ou por amor? E você vai achar estranho dizer amor e eu ficarei substituindo as palavras para passar o tempo de sentir o peso de não falar o quanto pesa meu coração. Não possso dizer por carinho, amizade, consideração, afeto, afeição. Enquanto isso seus olhos fitam-me rapidamamente para que eu não os perceba que são um rio de águas barrentas. Esses olhos de de água doce, de rio profundo e largo de margem a margem. Interessam-me esses olhos - ao que me parecem - de pouca vida. Não quero as redes, porque penso que, as vezes, você gosta do emaranhado das redes, elas o sustentam, o mantém na tentativa da resposta do por quê seus olhos, coração da alma, são assim. Não posso dizer o que quero, enquanto você só permite a mim atravessar o rio, e tantas vezes me arranca dele pelos braços como se eu não soubesse nadar, como se delicadeza que transfroma a paisagem em bela e nova o incomodasse. Já estou molhada, rasguei-me em suas redes, meus braços já cansaram-se prazeirosamente. Eu quero, por algum motivo, a outra margem do rio. Porque não tenho apenas beleza, tenho uma força que permitirá andar no ventre do rio ou como disse o poeta "na terceira margem". Aliviaria ainda mais, se com coragem, você olhasse nos meus olhos.

Planos desconhecidos

Nunca fui dessas que costuma fazer muitos planos. Aprendi que deveria, mas ainda não os faço a longo prazo. Ao mesmo tempo fico na expectativa de que um algo incerto acerte em cheio meus olhos furiosos trazendo-me calma. Seria o algo que deu certo dos planos para o futuro ou apenas a expectativa de vislumbrar o desconhecido?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sorriso da alma

Quero ofertar um sorriso da alma. O do rosto você já conhece, mas quero que sinta o da alma, o que instiga, provoqua, seduz, mas não machuca (embora as vezes eu gostaria que sim). Essa sou eu depois da tristeza, sem nada que me segure porque não há mundo ao meu redor. Procuro almas sorridentes, abertas ao meu abraço e aos que me abracem, apenas isso. Mas não creio que seja essa a sua alma porque sua tolice o faz crer que tudo o machuca. E eu gostaria que meu sorriso o ferisse, como já disse, mas ele não vai porque é apenas sorriso, e os meus não são mentiras. Sorrisos não plantam problemas, apenas arrancam as ervas daninhas. Receba meu sorriso, meu presente aberto, desembrulhado, sem esperança de troca. E eu nem me importo se me ferir nos seus espinhos que inundam o caminho que me leva até a sua alma, contanto que você receba meu sorriso. Seu tolo, inerte, medroso e ferido em si mesmo, receba o sorriso da minha alma que eu oferto com respeito e gratidão.

Que droga de beijo

Chega e buzina.
"Já vou abrir!"
Apanho a chave que nunca encontro, e no portão, ele faz a mesma pergunta de sempre, repete a mesma frase de sempre. Boca-na-boca ridiculamente chamada de beijo. Às vezes um cheiro bom de perfume faz crescer as expectativas da noite que logo morrem quando ele olha para mim com mesmo olhar.
Eu, salto, vestido provocante, a maquiagem que combina com o tom da pele e da lua.
"Oi".
E fico esperando um algo assim mais aconchegante que não vem, então passo a não esperar mais nada. Mas que droga de noite. "Oi?" Mas que droga de "oi", mas que droga de "beijo", mas que droga de adornos que mais parecem o figurino de uma cena que deveria ser feliz.
"Você está quieto".
"Você está quieta".
E o silêncio torna-se motivo de uma agravante briga repetitiva que começou no portão. No portão? Na porta do coração. Naquilo que deveria ser semeado e não foi.
Erramos.
"Para onde vamos?"
"Para onde você quiser."
"Eu quero um lugar diferente"
E lá vamos nós para o mesmo lugar porque a minha palavra não vence, e ele rindo de mim dizendo que eu não aguento badalar.
A conversa flui algumas vezes agradável. Outras vezes eu apenas o ouço com raiva de algumas palavras que fico repetindo e engolindo dentro da minha cabeça. Tento ser agradável e de repente falar de mim? Melhor calar, porque pra ele só tenho erros. Então me calo.
E a noite vai terminando do mesmo jeito que sempre termina.
Por vezes com uma conversa dolorida "eu não sei mais o que faço porque você não era assim". Então eu choro, porque eu não era assim e não sei o que me fez tão diferente.
Ele deixa que eu chore um choro dolorido e espantoso por um tempo que parece eterno. E o choro é apenas o pedido do abraço depois do portão aberto.
O consolo é a cobrança do "mude por favor, seja o que era". E o choro continua no travesseiro porque o que era já foi, já não pode ser. Nem ele é, mas insiste em dizer "eu não mudei".

quarta-feira, 16 de março de 2011

Provas de um não amor

Você não se importa. Não se importa com o abandono na sala de estar (ou qualquer outro lugar) e desculpa-se porque estou confortável. Cinco, seis, dez horas esperando, tanto faz. Mas você não sabe que bancos, estofados, almofadas, cama, o próprio sono, nada disso conforta o coração. Mas você não se importa porque simplesmente não me abandonou na rua, na chuva, perdida. Eu preferia estar na chuva, na rua e perdida, porque isso sim seria o meu conforto, eu me encontraria, mas você não se importa.
Você não se importa com o abandono na mesma sala, com a ausência de si mesmo, e diz que estar ali é o que importa, em outras palavras, você é o que importa.
Você não se importa se é com você que me importo, se me desdobro, se dou piruetas, ando na corda banda e enfrento os leões. Você não se importa se quero cuspir fogo pela boca, porque meu dever de mulher é ser muda.
Você não se importa se fiquei bela, se existem olhares me olhando. Não percebe que fiquei bela para você porque pensa que me possui. Nem percebe que fiquei bela.
Você não se importa se estou feliz com o espelho e me pede mudanças aqui e ali, para trocar a peruca de menina de cera, amenizar a maquiagem, mudar a cor da roupa. Se sou o que sou, você não se importa.
Você não se importa com minha angústia, porque para você é injustificável. Não se importa se quero falar, se preciso falar. Você não se importa se não me entende e o único esforço que faz é que para que eu seja sua bonequinha de luxo, ao seu modo, sorridente.
Você não se importa se passo as noites chorando, contanto que não veja as lágrimas. Não se importa que eu sofra, contanto que não veja o semblante. Não se importa que me fira, contanto que não veja o corte.
Você não se importa se não me ver, nem com minhas necessidades. Não se importa se me comprometo e me quer livre quando me quer.
E é de tanto não se importar que eu olho assim para você, como se a falta de importância nem tivesse importância.

terça-feira, 15 de março de 2011

Abandono justificável

Não, eu realmente não sou forte. Não consigo ultrapassar certos obstáculos e algumas vezes sento-me em frente a eles e os fico observando e choro feito criança, como se não pudesse me levantar e tirar aquela tralha do meu caminho.Nunca pratiquei nem um ato memorável sequer, não sou digna de louros, não sou merecedora da vida, não possuo a coragem dos grandes. Sou fraca e cometo erros inúmeros - não desses habituais, dos simples mortais, que passam despercebidos. Eu realmente erro, cometo erros absurdos e repito-me nos erros, embaraço-me neles, naqueles que todos dizem "não-faça-de-novo", lá vou eu fazê-los novamente e perder-me novamente e ouvir da minha própria consciência "quanta-falta-de-habilidade" porque já não é inocência. Depois do erro não há quem segure a minha mão, mas eu mereço. Como posso receber abraços se julgo, aponto, murmuro, num crescente de ingratidão. Eu mereço minha mão vazia, meus braços vazios e a solidão de apenas olhar para o obstáculo. Sou realmente cruel nas palavras, na imposição das posições, no olhar que não perdoa. Sou uma garota malvada, é justificável esse abandono.