sábado, 26 de fevereiro de 2011

Querendo ser bala

Quero ser doce, feito bala, sabe?
Puro açúcar. Caramelo esticadinho e cortadinho. Coloridinho, arco-íris doce. Já pensou ter sempre no bolso um pedacinho embrulhadinho do arco-íris? Se não pensou, que pense pois sei que vai querer essa delícia feita de chuva e de sol, pra guardar, mastigar, chupar, presentear.
Bala pra ser o sorriso da criança, a solução do amargo na boca, a oferta do flerte na ausência das flores. Arma fatal estritamente necessária. Quem não quer bala? Quem não precisa de bala?
Quero ser esse doce pedacinho do arco-íris.
Não, não, não... Nada de pote de tesouro, pote de balas sortidas no final.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Entre tantas

Você pediu, escolha: Aline, Bruna, Carol, Daniele, Elaine, Fernanda, Gabriela, Helena, Isabel, Júlia, Luana... Uma para cada letra do alfabeto. Pois se já fui tantas sem que percebesse, não vou desconsiderar seu pedido, elas já estão aqui. Apenas esteja preparado, ou nem esteja, você nunca está, nunca esteve. Marisa, Natália, Paula, Rose, Sabrina, Tatiana... Um para cada dia do mês, ou da semana. Seu desejo é uma ordem, porque você se perde em si e nem sabe o que quer.
Todas encantam com a delicadeza violenta de arrancar você do controle. Seduzem com a inocência distraída de quem vagarosamente tira a força. Controlam explicitamente apenas com um olhar de muitos olhares.
Todas prontas em mim. Por que simplesmente não degusta cada sabor? Não será possível escolher e sei que você não quer escolher, não sabe escolher.
Sim, eu rio, porque você se perde em todas e nem sabe querer. E, sim, eu provoco, eu tiro da boca, eu ofereço o excesso, e o abandono no vazio. É para enrijecer sua mente sem razão. Não venha com suas sem razões.
E vou esperar em vão que você me perceba única, ainda que travestida em tantas. Não é para enganar, não é para machucar, não é para divertir. É para ter gozo. É para deixar você assim, de olhos muito abertos, com a sensação do poder. Uma sensação que logo passa, porque você se perde em si. Porque você me pede.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Passado

Quis extirpar essa velharia a qual posso chamar Solidão, assim sem saber como fazê-lo, sem saber onde ela estava. Mas agora vejo que está no que se foi. E por isso já não precisa ser arrancada com as unhas, porque já não é concreta, já não é exata, já nem existe mais.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Regresso

E agora que estou novamente no centro, para onde ir se quero sentir a dor das minhas pernas, se quero calejar os pés? Não quero suporte, porque ninguém poderia sê-lo. Quero caminhar para um lugar distante, quase inexistente. Quero esquivar-me, sair deste ambiente sedutor e prazeroso onde perco-me. Quero ir pra casa, é isso. Voltar para dentro de mim. Sinto saudades da leveza. Há de haver leveza...
Estou no meio do círculo dos cego. Entretanto, ainda escoando-me, quero os olhares, sim, todos os olhares para mim! E quero olhares cegos. Quero olhos feridos que enxerguem apenas as sombras enquanto me dispo, e que neste momento desejem ver o todo, e o desejem ardentemente. Quero que, enquanto recoloco a máscara, procurem o meu rosto. Sei que não conseguirão, por isso permito e por isso os odeio quando me entrego.
Mas, espero que esperem por mim enquanto vou. E sintam uma ausência dolorida a qual chamarei de culpa. Esta raiva que me faz arranhar o mundo com as unhas e o não querer que me deixem ir... O que é toda essa ambivalência? No núcleo dos meus segredos estará a resposta?
Caminhar e sentir a dor do peso do próprio corpo, sentir-me real... Quero sair do centro de tantos olhares para conseguir chegar àquele onde me escondo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tatuagem de emoção

Estou viva. Sou toda pulsante num deleite vital, ainda que eu não ria. Sorriso não é vida.
Todos os dias deparo-me com pessoas mortas que respiram.
Eu tive coragem de não ser uma delas, nem mesmo quando um pensamento raso de não viver aparece como sombra irreconhecível.
Tenho sede de vida. Mas embaraço-me quando abro os olhos para a interminável degradação do mundo e de quem me cerca, porque quero amá-los e não consigo.Verdade perversa que traz lembranças de névoa que não vão embora apenas com o abanar das mãos. Não é como lembrar da melhor festa de aniversário da infância que nem aconteceu. A festa aconteceu. A infância não. E é por isso que recordo-me dos balões, mas não de mim.
Mas, deixem-me chorar agora. Parem de me dizer o que devo pensar, o que devo fazer, o que devo mostrar.
É claro que a vida dói, mas não quero encher os olhos de ninguém com a minha verdade.
Eu sei que já passou e que sou forte. Sim, eu sou forte, e a força dos meus olhos também dói como a vida dói na carne. Preciso de pessoas que não se doam com o meu olhar. Preciso de pessoas que procurem meu olhar. Preciso de pessoas que de deleitem nele, sem reprovação pelo restolho da angústia que vez por outra aparece, e que é normal pra quem viveu tantos extremecimentos. Preciso de pessoas que absorvam toda essa minha vida impetuosa e louca de intensões de ultrapassar limites.
Não quero que ninguém se assuste comigo, com minha falta de passividade, com essa agudeza estranha, com esse desejo avassalador, com o conjunto que chamam de mistério.
Eu só quero viver. E vivo. E vou viver marcando cada um que por mim passar, fazendo uma tatuagem de inesquecível emoção. É o meu prazer. É a minha vida.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Gratificação

Por alguns instantes a vida gratifica, e a primeira sensação é a de rejeição dos louros. É como deparar-se com a inverdade de receber de presente o copo d’água que faltava no momento da extrema sede.
Depois da seca, ainda com a lembrança de ter gritado por água, chorado por água, adoecido pela falta, equivocando-se o com oásis. Depois dessa busca inútil e dos lábios rachados, da língua sem força, da irresistência, da desistência, a vida vem e gratifica.
E você, satisfeito, amedronta-se. A vida ainda oferece mais, transborda o copo, deixa encharcar os lábios, deixa molhar o rosto. A vida abunda. E você bebe no desespero do querer, ainda duvidando que aquilo seja um presente. Mas não há como contra dizer, o instante de matar a sede é o prêmio de viver.
De onde veio essa água tão pura que completa? Não foi delírio, foi exatamente a medida que faltava. Parece a vida silenciosamente oferecendo trégua, parece que ao redor nunca ouve guerra e que não haverá cacos a serem recolhidos. Apenas respingos da doce água.
Nesse instante não quero mais desejá-la ou esperar por ela ou buscá-la avidamente. A água estará sempre ali. E eu, quando repleta, ficarei cega novamente, mas espero não sentir a aflição da sede. Espero ter a sagacidade de ajoelhada tatear o chão e encontrar humidade no solo e sentir o cheiro do frescor. Espero poder mergulhar o rosto nessa fonte. Sei que não haverá plenitude, mas satisfação, ainda que sem merecimento.

Displicente

Tão forte, tão dona de mim e tão solitária. Para que tanta coerência. Quero jogar fora as inutilidades e ficar com o que não é certo, se é que não é certo.
O mundo vai se repetindo a girar. E eu que esperava que a força da gravidade fosse acabar no tempo em que eu amava.
Agora sou displicente. Que delícia ser displicente. Gosto do sabor das palavras - dis - e vou mordendo - pli - os pedaços - cente. Sente? Delícia esquecer, assustar e reconhecer uma saudade fantasma de vontade de viver.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Rumos

Mil desejos, mil projetos, mil caminhos e medo...
Um específico e imenso - mudar o trajeto que conheço para uma realização. Porque já sonhei demais, percorri muitas estradas sem fim atrás de sonhos.
Conforme as velhas lágrimas secam e desembaçam os olhos, vou endireitando meus passos.
Meu foco agora é o concreto. E sigo - apavorada - por esse caminho desconhecido de concretude, com minhas pernas bambas e as mãos molhadas de suor.
Sempre pergunto o que a vida quer dizer, ainda que apenas olhe para mim. Não tenho certeza.. Não sou absoluta.
Acerto e erro e recebo o bom e o ruim do que a estrada me oferece.
Expresso a miscelânea de sensações que sou, sem (?) explosão ou continência de sentimentos, sem ruminação eterna.
Não, meu coração não é maior que o mundo, mas desculpe-me Carlos, nele cabem todas as minhas dores. Ele pode todos os sentimentos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Arranjo

Destruo as coisas para reconstruí-las de melhor maneira – você disse. Então, venha e desconstrua-me fazendo melhor esse meu desarranjo. Reinicie-me, dê-me nova introdução, serena ou vívida, tanto faz, contanto que faça meu começo. Apenas peço que não reinvente outra tristeza nesse novo princípio... Não preciso de outro precipício, faça-me ponte.
Reinvente meus gestos contidos e minhas melhores palavras, contudo permita-me não calar jamais. Mas reconstrua-me derrubando todo riso que impede os meus desejos. Desfaça-me vagarosamente desritmando meus restos. Vai, dê-me um ritmo que resulte numa nova movimentação. Torne-me harmoniosa e faça não fazer sentido algum.
Vem, você pode recompor-me e sabe como fazê-lo. E remova a pausa irrequieta que me atropela, e com sutileza reconstrua meu silêncio dando-o docilidade.
Dê-me a forma do vento desse agora e deixe-o me levar como fumaça. Percebe que quero ser outra? Faça-me outra porque sei que serei a mesma, aquela que está lá dentro esperando ser inteira. Inteira pra ser levada como fumaça.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

João e Maria

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Desde criança quis ser a princesa onírica de Chico. Primeiro no colo do papai, depois no colo de outros. Mas sempre a linda notável, e hoje ainda mais parecida com ela. Chico sonhou minha coroação insistente pela ausência da ideia não alimentada com paixão.
Desde criança quis fugir, primeiro do meu pai, depois de tantos outros. E com o gosto de, antes da retirada, entreter-me com meus mocinhos brinquedos. Chico sonhou minha liberdade nua com a possibilidade das mãos dadas.
Mas desde criança eu não faço de conta, eu finalizo-me e destituo-me e fico lembrando do meu quintal de barro e bananeiras onde queria construir castelos e onde quero acordar como ninfa e onde quero fazer alguém adormecer por encanto. Mas Chico não conheceu o pra lá do meu quintal, e não soube (como ninguém sabe) da minha noite sem fim. Sem procura no meu mundo, sem loucura no meu mundo e ninguém para se perder de mim.
E é isso que eu queria Chico. Desde não sei quando eu queria...