sábado, 12 de fevereiro de 2011

Marcas

"A sua poesia se apaixonou pela minha poesia. A sua arte se apaixonou pela minha arte"

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tatuagem de emoção

Estou viva. Sou toda pulsante num deleite vital, ainda que eu não ria. Sorriso não é vida.
Todos os dias deparo-me com pessoas mortas que respiram.
Eu tive coragem de não ser uma delas, nem mesmo quando um pensamento raso de não viver aparece como sombra irreconhecível.
Tenho sede de vida. Mas embaraço-me quando abro os olhos para a interminável degradação do mundo e de quem me cerca, porque quero amá-los e não consigo.Verdade perversa que traz lembranças de névoa que não vão embora apenas com o abanar das mãos. Não é como lembrar da melhor festa de aniversário da infância que nem aconteceu. A festa aconteceu. A infância não. E é por isso que recordo-me dos balões, mas não de mim.
Mas, deixem-me chorar agora. Parem de me dizer o que devo pensar, o que devo fazer, o que devo mostrar.
É claro que a vida dói, mas não quero encher os olhos de ninguém com a minha verdade.
Eu sei que já passou e que sou forte. Sim, eu sou forte, e a força dos meus olhos também dói como a vida dói na carne. Preciso de pessoas que não se doam com o meu olhar. Preciso de pessoas que procurem meu olhar. Preciso de pessoas que de deleitem nele, sem reprovação pelo restolho da angústia que vez por outra aparece, e que é normal pra quem viveu tantos extremecimentos. Preciso de pessoas que absorvam toda essa minha vida impetuosa e louca de intensões de ultrapassar limites.
Não quero que ninguém se assuste comigo, com minha falta de passividade, com essa agudeza estranha, com esse desejo avassalador, com o conjunto que chamam de mistério.
Eu só quero viver. E vivo. E vou viver marcando cada um que por mim passar, fazendo uma tatuagem de inesquecível emoção. É o meu prazer. É a minha vida.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Gratificação

Por alguns instantes a vida gratifica, e a primeira sensação é a de rejeição dos louros. É como deparar-se com a inverdade de receber de presente o copo d’água que faltava no momento da extrema sede.
Depois da seca, ainda com a lembrança de ter gritado por água, chorado por água, adoecido pela falta, equivocando-se o com oásis. Depois dessa busca inútil e dos lábios rachados, da língua sem força, da irresistência, da desistência, a vida vem e gratifica.
E você, satisfeito, amedronta-se. A vida ainda oferece mais, transborda o copo, deixa encharcar os lábios, deixa molhar o rosto. A vida abunda. E você bebe no desespero do querer, ainda duvidando que aquilo seja um presente. Mas não há como contra dizer, o instante de matar a sede é o prêmio de viver.
De onde veio essa água tão pura que completa? Não foi delírio, foi exatamente a medida que faltava. Parece a vida silenciosamente oferecendo trégua, parece que ao redor nunca ouve guerra e que não haverá cacos a serem recolhidos. Apenas respingos da doce água.
Nesse instante não quero mais desejá-la ou esperar por ela ou buscá-la avidamente. A água estará sempre ali. E eu, quando repleta, ficarei cega novamente, mas espero não sentir a aflição da sede. Espero ter a sagacidade de ajoelhada tatear o chão e encontrar humidade no solo e sentir o cheiro do frescor. Espero poder mergulhar o rosto nessa fonte. Sei que não haverá plenitude, mas satisfação, ainda que sem merecimento.

Displicente

Tão forte, tão dona de mim e tão solitária. Para que tanta coerência. Quero jogar fora as inutilidades e ficar com o que não é certo, se é que não é certo.
O mundo vai se repetindo a girar. E eu que esperava que a força da gravidade fosse acabar no tempo em que eu amava.
Agora sou displicente. Que delícia ser displicente. Gosto do sabor das palavras - dis - e vou mordendo - pli - os pedaços - cente. Sente? Delícia esquecer, assustar e reconhecer uma saudade fantasma de vontade de viver.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Rumos

Mil desejos, mil projetos, mil caminhos e medo...
Um específico e imenso - mudar o trajeto que conheço para uma realização. Porque já sonhei demais, percorri muitas estradas sem fim atrás de sonhos.
Conforme as velhas lágrimas secam e desembaçam os olhos, vou endireitando meus passos.
Meu foco agora é o concreto. E sigo - apavorada - por esse caminho desconhecido de concretude, com minhas pernas bambas e as mãos molhadas de suor.
Sempre pergunto o que a vida quer dizer, ainda que apenas olhe para mim. Não tenho certeza.. Não sou absoluta.
Acerto e erro e recebo o bom e o ruim do que a estrada me oferece.
Expresso a miscelânea de sensações que sou, sem (?) explosão ou continência de sentimentos, sem ruminação eterna.
Não, meu coração não é maior que o mundo, mas desculpe-me Carlos, nele cabem todas as minhas dores. Ele pode todos os sentimentos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Arranjo

Destruo as coisas para reconstruí-las de melhor maneira – você disse. Então, venha e desconstrua-me fazendo melhor esse meu desarranjo. Reinicie-me, dê-me nova introdução, serena ou vívida, tanto faz, contanto que faça meu começo. Apenas peço que não reinvente outra tristeza nesse novo princípio... Não preciso de outro precipício, faça-me ponte.
Reinvente meus gestos contidos e minhas melhores palavras, contudo permita-me não calar jamais. Mas reconstrua-me derrubando todo riso que impede os meus desejos. Desfaça-me vagarosamente desritmando meus restos. Vai, dê-me um ritmo que resulte numa nova movimentação. Torne-me harmoniosa e faça não fazer sentido algum.
Vem, você pode recompor-me e sabe como fazê-lo. E remova a pausa irrequieta que me atropela, e com sutileza reconstrua meu silêncio dando-o docilidade.
Dê-me a forma do vento desse agora e deixe-o me levar como fumaça. Percebe que quero ser outra? Faça-me outra porque sei que serei a mesma, aquela que está lá dentro esperando ser inteira. Inteira pra ser levada como fumaça.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

João e Maria

Desde criança quis ser a princesa onírica de Chico. Primeiro no colo do papai, depois no colo de outros. Mas sempre a linda notável, e hoje ainda mais parecida com ela. Chico sonhou minha coroação insistente pela ausência da ideia não alimentada com paixão.
Desde criança quis fugir, primeiro do meu pai, depois de tantos outros. E com o gosto de, antes da retirada, entreter-me com meus mocinhos brinquedos. Chico sonhou minha liberdade nua com a possibilidade das mãos dadas.
Mas desde criança eu não faço de conta, eu finalizo-me e destituo-me e fico lembrando do meu quintal de barro e bananeiras onde queria construir castelos e onde quero acordar como ninfa e onde quero fazer alguém adormecer por encanto. Mas Chico não conheceu o pra lá do meu quintal, e não soube (como ninguém sabe) da minha noite sem fim. Sem procura no meu mundo, sem loucura no meu mundo e ninguém para se perder de mim.
E é isso que eu queria Chico. Desde não sei quando eu queria...