Não vivo muitos momentos solenes, ainda mais um celebrado num quase silêncio em meio a angústia fina de um duro final de dia. Na cama, acompanhada daquela tristeza que dá nó e sufocando um choro no travesseiro desejei alguém. Fiz minha prece, mas não pensei em seres celestiais, queria alguém de carne e osso. Lembranças de companhias vinham, e bem a dele que enchia o quarto e preenchia o coração. Talvez pra dar nome a dor, pra chamar aquilo de saudade, ou talvez porque eu simplesmente o ame e o queira por perto. Então, como de costume, enxuguei as lágrimas, acendi a lâmpada e apanhei o caderninho e a caneta da cabeceira da cama. Escrevi exatamente estas palavras:
Tente arrumar algum tempo pra mim, e como deve ser difícil. E sei que você sabe que eu disse algum, e não todo tempo. Mas paixões comprometem e você está certo em comprometer-se. Entretanto queria tanto alguém para dividir meu lado bom, porque não tenho coragem de lhe expor o meu terror. E sinto sua falta. E ao mesmo tempo quero que você voe, meu bem. Mas vem de vez em quando compartilhar seu infinito.
Apaguei a luz e deitei novamente, com os olhos mais calmos e a mente menos marejada. Foi quando a porta abriu com um:
Acordada? Posso entrar?
Entre querido, e pode acender a luz...
Ele apenas entrou, deitou do meu lado e segurou a minha mão. Alguns segundos quietos e depois despejo de palavras leves que aliviam corações pesados (de ambos) e ele dormiu ali, ao meu lado. E eu emocionada e assustada por uma realização quase banal e tão rara. Mas, não sozinha. Nunca sozinha, ele sabe. Eu é que insisto na dúvida.
Elaborar frustrações e ressignificar a vida para não mais sobreviver. Para viver.
terça-feira, 31 de maio de 2011
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Estúpido apaixonado
Conheci um estúpido que se diz apaixonado. Pode ser que realmente esteja porque a paixão em si, muitas vezes, aparece como idiotia crônica. Há quem diga que é necessário ser um pouco estúpido, ter certa falta de inteligência, uma certa falta de juízo. Mas este é totalmente estúpido, e não sei como consegue reunir tantos sinônimos desprazeirosos. Possui uma absoluta falta da habilidade social do lidar com o próximo, e ao mesmo tempo é desprovido do cuidado de não sair da razão para não ser incortez, descivilizado, grosseiro e bruto - inclusive com o objeto amado. E é engraçado observar suas tentativas insólitas e grotescas de conquista. Não é possível ao menos considerá-lo ingênuo, brincalhão ou distraído quando por vezes machuca a pele, a carne e o coração de quem passa pelo seu caminho, porque ele é simplesmente como eu diria, um estúpido com maestria. Por isso, embora sua expressão corporal consiga alcançar certa teatralidade amorosa, parece que não ama. Insiste na conquista utilizando-se de toda sua refinada impolidez, abordando com uma impressionante descortezia - que dirá o resto - com sua alma ausente de hurbanidade e civilidade, não sei se por dedicação ou traço genético ou desvio de personalidade. Mas, talvez ame, por que não? É apenas estúpido e deve haver quem goste de uma indelizadeza, de um despropósito e de uma mágoa (porque haja coração). Quanto a mim, estupidez me desapaixona, já basta a imperfeita natureza humana. Esse acúmulo de qualidades não me cabem na traqueia.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Nada sutil
Na verdade minha casa, meu quarto, meu coração são meus, de ninguém mais. Eu fingi que doei, que aluguei, que me dei sem fingir. Eu quero ser invadida. Vai, arromba essa porta. Estou esperando há muito que você entre e me roube sorrateiramente. Toda a violência é permitida, não me deixe aqui fechada esperando mais uma gentileza. Não me deixe aqui fechada, mas não bata na porta, não peça licença, não pergunte se pode. Me arranque, me agarre, me beije. Eu sei que haverá paixão e é essa paixão que eu quero. ignore meu rosto de espanto, meu corpo acuado e a tentativa de fuga se houver. Esqueça minha primeira reação e simplesmente habite em mim
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Pare de magoar
Para que magoar tanto e tanta gente ao mesmo tempo? Eu amo você por todas as lembranças mais dolorosas da minha vida. E tenho pena e talvez seja por isso que eu suporte todas as suas agulhas e facas e canivetes previamente colocados em lugares estratégicos. Suportar quando você machuca lhe dá suporte para sobreviver. Mas, você não é vivo já faz tanto tempo. Sim, eu choro e choro e choro esse chorinho imbecíl - meu escape natural para não magoar tanto - porque sou de carne e osso. Eu odeio você com todo amor do mundo. Você sintetiza o funesto, você anuncia o funesto, tem o odor do funesto. E se você o trouxer, a culpa será de todos nós? Eu não suporto, minha mente não suporta, meu corpo não suporta mais sentir culpa por você. Não estrague o resto dessa droga toda. E enquanto isso você pensa que é o melhor com essa sobrevida miseravelsinha. Tudo bem, apanhe todo o seu glamour, inteligência, sensatez, bom gosto, decência e deixe-me decair, já não falo por ninguém. Nunca nos abraçamos? Nunca foi abraçado? Você não foi pego no colo? Não caminhamos juntos, a três, no parque de diversões? Nem corremos na chuva? E as bexigas? As fantasias que vinham em pacotes? O que era aquela outra brincadeira apenas sua e dele? Seria melhor se fosse pior? Eu lembro. Recupere o belo, o bom, o agradável. O resto não era para ser assim, eu sei, mas tenho recebido tantos abraços e tenho pena de você quando olha para mim com toda essa superioridade porque podia estar sendo abraçado. Quando choro, não é por fraqueza, mas por desejo de lhe sorrir - e se isso for fraqueza, choro por fraqueza, toda fraqueza do mundo. Por que você insiste em lembrar o que ninguém queria ter vivido. Ninguém queria. Todo mundo sofreu. Então pare de magoar. Deus, você precisa de uma camisa de forças e dormir profundamente e ir para bem longe no seu pensamento. Estou cansada de entender e compreender o que passou com você e deixar acontecer por isso e ficar assim, despedaçada.Pare, pare, pare, mil vezes, não faça mais isso. Eu preciso sair desse mortuário.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Dane-se
Abandonei o querer você e até o desejo de querer, a maior delícia de todos os quereres, porque agora, meu desejo mais profundo e sincero é que você se dane. Talvez isso dure até amanhã, não o desejo insalubre de não querer, mas o desejo de que você vá para o inferno. Também, não há maldade em mim que lhe queira morto e ardendo no fogo eterno, desejo apenas um inferno metafórico de sofrimento. Desejo que você se dane, é isso.Ou talvez essa falta dure até quando eu não puder mais olhar nos seus olhos cegos com repugnância, olhos que representam o tempo inteiro um certo não querer sem gosto que você chama de paixão. Sua paixão tem menos gosto que a minha ausência, é o que demonstram abestalhados, buscando o que todos sabem e você finge que não. É por isso que eu quero que você se dane com seu tosco sofrimentozinho infantil.
E veja que lhe fiz melhor do que você é, como ator principal de uma tragédia presenciada por Dionísio nenhum. Mas, dane-se, porque não era para ser a catarse da minha vida, apenas uma história bem contada que nem precisava ter final – que dirá final feliz. Só queria uma paixãozinha leve e fresca e divertida porque a vida tem que ser assim, puro riso e não este ato sofrível que você representa.
Não vou ditar a cartilha da vida, ensinar um caminho do novo, mostrar expectativas, esperar que você desperte deste sono inútil. Cansei de você e estou indisponível no momento. Ah! Sim, disponibilíssima para ver você sofrer. Você vai acabar sabendo de mim, sem querer. Mas dai vai ser tarde, vai ter que bater na porta que eu fechei. E sei que não vai bater na minha porta - pois se não é o covarde mais estúpido que já conheci - porque ali estará a placa em letras garrafais com um recado pra você: Vá se danar.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Exilada do seu Reino
Mulher imponente de olhos enigmáticos. Sinto-me quase como Capitu e seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Sempre quis ter os olhos de ressaca de Capitu, mas olhares não se fabricam... Entretanto lá vêm eles a dizer que meus olhos são misteriosos e que sou majestosa. Eu quando realmente quero olhar como mar bravio que afoga, transformo-me numa água mansa, quase a fechar os olhos... Não sou impiedosa, preciso de piedade.
Sim, alguém iria ignorar-me, mas por que você? Tanta frieza e ausência de gestos com qualquer sentimento que seja. Não consegue ver um quê sequer de beleza em mim que possa ser apreciado? Você reduz meu olhar, desejado por tantos, a uma insignificância. Enquanto espero ansiosamente por sua presença, percebo que sou obrigação aos seus olhos quando me vêem. Você parece respirar fundo por ser obrigado a me olhar. E nem me olha, como se a sedução intrínseca a mim, tão disputada, para você fosse lixo.
Você tem a sua vida e eu gostaria de deixá-lo viver em paz. Mas eu quero tirar a sua paz – e tirar as arestas restantes – dando-lhe paixão. É, paixão mesmo. Estou cansada de inventar palavras para sentimentos. Eu tenho a minha vida também, mas gostaria de deixá-la para viver a sua, estar com você, por alguns instantes ouvir sua grave voz tão baixa e arrastada no meu ouvido. Sei construir momentos inesquecíveis. Será apenas um momento, não se esquive. Não sou exigente, há um mundo que me espera num tempo infinito e sei que posso tanto... Mas quero você, antes de mais nada.
Desejo coisas tolas como roçar meu rosto no seu peito. Peito tocado por outras até então, realizado pelo seu desejo. Mas você me cumprimenta com os dedos, mal aperta minha mão, como se não me conhecesse, ou como se preferisse não me conhecer. Deve estar apaixonado, vivendo um romance, amando desesperadamente outra mulher, enquanto eu espero o que você não quer que eu queira. Ou pior, o que tanto faz... Ah, isso dói, menino, e como.
Sim, alguém iria ignorar-me, mas por que você? Tanta frieza e ausência de gestos com qualquer sentimento que seja. Não consegue ver um quê sequer de beleza em mim que possa ser apreciado? Você reduz meu olhar, desejado por tantos, a uma insignificância. Enquanto espero ansiosamente por sua presença, percebo que sou obrigação aos seus olhos quando me vêem. Você parece respirar fundo por ser obrigado a me olhar. E nem me olha, como se a sedução intrínseca a mim, tão disputada, para você fosse lixo.
Você tem a sua vida e eu gostaria de deixá-lo viver em paz. Mas eu quero tirar a sua paz – e tirar as arestas restantes – dando-lhe paixão. É, paixão mesmo. Estou cansada de inventar palavras para sentimentos. Eu tenho a minha vida também, mas gostaria de deixá-la para viver a sua, estar com você, por alguns instantes ouvir sua grave voz tão baixa e arrastada no meu ouvido. Sei construir momentos inesquecíveis. Será apenas um momento, não se esquive. Não sou exigente, há um mundo que me espera num tempo infinito e sei que posso tanto... Mas quero você, antes de mais nada.
Desejo coisas tolas como roçar meu rosto no seu peito. Peito tocado por outras até então, realizado pelo seu desejo. Mas você me cumprimenta com os dedos, mal aperta minha mão, como se não me conhecesse, ou como se preferisse não me conhecer. Deve estar apaixonado, vivendo um romance, amando desesperadamente outra mulher, enquanto eu espero o que você não quer que eu queira. Ou pior, o que tanto faz... Ah, isso dói, menino, e como.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Pirei em você
Parei na tua, rapazinho. Não deu. Teu sorriso amarrado me seduziu e eu não sei o que faço. Vidrei na tua, irmãozinho. Teu olhar que não me olha me abandona o corpo. Me olha com preguiça, lindo, mas olha. Eu tô louca porque é só na tua boca que eu penso, é só ela que eu quero - eu até olho pra outras tentando desejar. Que é que há nessa boca, me deixa saber, moleque? Faz assim, não. Tu tem um tudo que me aquece e me derruba sem encostar um dedo sequer no meu corpo. Mas me deixa te provar... Por que tu me faz pensar que teu olhar me chama, se a chama é só minha? Brinca assim comigo não. Eu piro só de te olhar... Por que tu não faz o resto? É com loucura mesmo, com toda loucura do mundo, que se dane o mundo. Depois tu vê o que faz, escolhe o que quer, quem quer, fica com todo o resto que te quer, mas antes me beija, me abraça, me faz feliz por um segundo acalmando isso que vibra de olhar pra ti. Depois, depois é depois. Eu nem quero saber. Te quero, e só.
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